29 de março a 01 de abril de 2021

Primeiro painel do 3º Fórum debate sobre oportunidades para o meio rural nos três estados

Primeiro painel do 3º Fórum debate sobre oportunidades para o meio rural nos três estados

Produtores relatam experiências com biogás em propriedades rurais. Atores da agropecuária contam como biodigestores aumentam aproveitamento sustentável, reduzem gastos e até melhoram a qualidade de vida

O seminário Biogás e Biometano: Oportunidades Econômicas para o Meio Rural da Região Sul deu início à programação do 3º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, realizado pelo CIBiogás, Embrapa e Universidade de Caxias do Sul, com organização da Sociedade Brasileira dos Especialistas em Resíduos das Produções Agropecuária e Agroindustrial (Sbera).

Transmitido ao vivo pelo YouTube nesta segunda-feira (29/03), o evento online foi dividido em dois painéis de debate: o primeiro sobre Políticas e estratégias estaduais para biogás, biometano e energias renováveis, com participação de secretários e representantes de estado da agricultura dos três estados do Sul do Brasil, além de responsáveis por órgãos de extensão rural.

Painel políticas e estratégias

O moderador do painel, Clovis Reichert, diretor da EPI – Energia, Projetos e Investimentos Ltda, explica que “o maior objetivo deste seminário é de abrir espaço de discussão para as políticas públicas e oportunidades de incrementar tecnologias, processos e soluções para a propriedade rural e para o setor do agronegócio como um todo, mas em especial para os pequenos produtores”.

Paraná

O secretário de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná, Norberto Ortigara, lembra que o Brasil explora cerca de 2% de seu potencial de produção de energia renovável advinda do biogás. “É muito importante como marco referencial, para o reposicionamento político das três unidades da federação mais ao sul, no tocante a um tema tão relevante quanto esse, que integra um escopo mais amplo de preocupações com a sustentabilidade, e naquilo que somos razoavelmente bons que é produzir alimentos para o mundo.” Ortigara reforça ainda que a energia é um insumo cada vez mais relevante nos processos do meio rural e que, por isso, é necessário visar a sustentabilidade.

O secretário aponta ainda a importância das questões jurídicas que giram em torno da viabilização do desenvolvimento do biogás no Sul do país. “O próprio marco regulatório nos ajuda a evoluir bastante. As resoluções da ANEEL 482 e 687 estabelecem condições de acesso à micro e minigeração distribuída e ao próprio sistema de compensação de energia. Então, temos base legal, temos referência.”

Quanto ao potencial de produção de biogás no estado, Ortigars lembra que o Paraná possui “uma geração grandiosa de dejetos de animais e um grande número de agroindústrias, usinas e destilarias, que gera algum tipo de dejeto aproveitável para fazer energia”. E aponta estímulos do estado ao desenvolvimento e uso de energias renováveis no meio rural, a exemplo do Banco do Agricultor. Segundo o secretário, será financiado até o limite de R$ 1,5 milhão pelo teto rural, juro zero, para os agricultores. Além de uma lei, em fase de regulamentação, que institui um programa de energias renováveis no Paraná, o Programa Paraná Energia Rural Renovável.

Herlon de Almeida, coordenador do Programa Paraná Energias Renováveis do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), reforça a importância do suporte legal para o desenvolvimento da produção do biogás na região. A equalização das taxas de juros é um dos objetivos do estado para ajudar os produtores. “No caso das energias renováveis, vamos assumir ou o total dos custos de taxas de juros que os agricultores têm na tomada de crédito.”

O representante do IDR lembra ainda a importância da capacitação de pessoas. “Estamos tratando de qualificar os nossos quadros para que todos tenham condições de compreender o biogás.” E afirma: “é como transformar o passivo ambiental em um valor econômico, em uma riqueza, que é a energia”.

Para isso, Herlon de Almeida afirma que há o objetivo de credenciar empresas privadas que prestam serviços de elaboração de projetos no estado. “Segundo o CREA-PR, em outubro de 2020, nós tínhamos 71 empresas habilitadas para operar com projetos técnicos-executivos de biogás”, afirma. O objetivo é abrir um processo de chamada pública para credenciar o maior número possível de empresas e passar a encaminhar os agricultores para que os projetos técnicos sejam executados por elas. “A expectativa é de alcançar, até 2030, 8 a 10 mil propriedades com biogás no estado”, afirma.

Santa Catarina

Humberto Bicca Neto, diretor de Extensão Rural e Pesqueira da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), aponta dados relevantes que mostram aumento da demanda por projetos voltados para a energia em Santa Catarina: “de 2012 a 2017, nós tivemos o desenvolvimento de 19 projetos em média por ano safra, que buscavam a implementação de programas energéticos. De 2017 a 2020, a média sobe para 380 projetos de sistemas energéticos elaborados por ano”.

O secretário de Agricultura, Pesca e Desenvolvimento Rural do estado, Altair Silva, lembra que é comum comparar o potencial da matéria orgânica aproveitável disponível a partir da atividade pecuária na região Sul do Brasil a uma “segunda Itaipu“. “Claro que, para isso, enfrentaremos muitos desafios”, ressalta.

O secretário aponta ainda a importância da agricultura para a economia catarinense: “Cerca de 70% das exportações de Santa Catarina têm origem no agronegócio, ou seja, em 2020, a cada US $10 que exportamos, US $7 vieram da mão de quem trabalha na agricultura”. E complementou a apresentação lembrando de programas de apoio voltados para produtores rurais, como o Investe Agro e o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que garantem financiamento para custear e investimentos em implantação, ampliação ou modernização da estrutura de produção em estabelecimentos rurais. Por fim, ressalta: “o biogás é mais uma fonte de renda e de energia para toda a sociedade”.

Rio Grande do Sul

Erli Teixeira, chefe de gabinete da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul, lembra que a produção agrícola no estado está em crescimento, podendo bater recordes de produção. “A soja, por exemplo, tem expectativa de chegar a mais de 20 milhões de toneladas. Também houve aumento na região plantada de soja aqui no Rio Grande do Sul.”

A abundância de matéria-prima e oportunidades de produção não são, ainda, tudo o que o estado tem a oferecer, segundo o chefe de gabinete. “Além de dejetos animais, palhas, a gente possui também pesquisas científicas voltadas para esse tema aqui no estado, assim como mão de obra qualificada.”

Mesmo assim, é importante lembrar dos desafios e objetivos desejados. Segundo Erli Teixeira, ainda há obstáculos a serem enfrentados. “Os nossos desafios são o aproveitamento das biomassas disponíveis para geração de energia limpa, e o objetivo traçado é a produção de biogás que, além de ser uma fonte de energia de menor custo, vem oportunizar geração de emprego e renda”, afirma.

O chefe de gabinete lembra que o Rio Grande do Sul oferece ações e instrumentos como o Plano Energético da Secretaria de Minas e Energia (2016), com propostas de diretrizes para o setor energético da região. Já em 2019, foi criada a lei 15.377, que altera a lei 14.864/2016, e institui a Política Estadual do Biogás e do Biometano, o Programa Gaúcho de Incentivo à Geração e Utilização de Biogás e de Biometano (RS-GÁS) e dá outras providências.

João Sampaio, Assistente Técnico Estadual em Produção Animal da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (EMATER – RS/ASCAR) afirma que a empresa pensa que a produção de biogás, a partir dos resíduos do meio rural é uma alternativa possível para a busca de soluções ambientais decorrentes dos processos produtivos. “Uma solução não só ambiental, mas também econômica no que diz respeito desse passivo ambiental em energia, que tem valor. Vemos a necessidade de proporcionar orientação para que o manejo de dejetos seja realizado corretamente”, afirma.

Experiências com biogás em propriedades rurais

Em uma conversa franca mediada pelo Analista de Pesquisa da Embrapa Ricardo Steinmetz no Seminário Biogás e Biometano: Oportunidades Econômicas para o Meio Rural da Região Sul, no 3º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, produtores rurais contam suas experiências com biodigestores. Foram quatro depoimentos de diferentes locais da região Sul do Brasil, que mostram que os benefícios do biogás vão além de sustentabilidade e economias: essa fonte energética pode garantir até mais saúde e qualidade de vida para atores da agropecuária.

Pioneirismo, economia e qualidade de vida no Paraná
A propriedade de Claudete Volkweis e de seu marido Irineu é uma das primeiras a utilizar o auxílio do biogás para aquecer o aviário. “Quando quis fazer isso, o povo dizia que o Irineu estava doido, que não ia dar certo. E eu pensava: ‘como não? Se já está dando certo?’. Para nós, o biogás é ouro, eu sempre digo”, conta, emocionada, a produtora Claudete.

Na propriedade, hoje, o casal e o filho têm creche de 9 mil suínos e 19 mil frangos. Ela conta que, no inverno, antes do biogás, tinha de aquecer os frangos até 40 vezes por dia com fornalha. “Quem já mexeu com fornalha em aviário sabe que não é fácil, tem que encher várias vezes ao dia, de duas em duas horas, e a gente gastava muito com fornalha.”

Claudete e o marido Irineu em sua propriedade, uma das pioneiras em uso de biodigestor para aquecer aviário na região

Com o biogás, dona Claudete não abandonou só os gastos com fornalhas e contas de luz, mas também as noites mal dormidas. Ela conta que economiza R$ 2 mil reais por lote de lenha e, como o biodigestor também é usado para gerar energia elétrica para toda a propriedade, cerca de R$ 1.600 na conta de luz, em média. “Eu sempre falo que a gente não pode viver mais sem o biogás. Se fosse para começar com lenha de novo, meu marido diz que fecharia o aviário.” O casal aproveita a tecnologia desde 2012 e o mais importante para Claudete é como a novidade beneficiou a saúde da família. “Tínhamos que levantar para trocar a fornalha nas campanas, em um calor, e depois saíamos de volta para um frio abaixo de zero graus. Várias vezes ao dia. Hoje, só levantamos uma ou duas vezes por noite para ver os pintinhos – dar uma olhada e pronto. Com o forno não, aquilo ali não tem saúde que aguente”, desabafa.

Por fim, dona Claudete deixa uma dica valiosa: “cuida do meio ambiente e cuida da sua saúde, porque ninguém vai fazer isso”.

Baixo custo em biodigestor no Rio Grande do Sul


Osnei Muniz, técnico em Agropecuária na Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), apresenta a história de outro casal de produtores, Ademar e Zenilde Nunes Luiz. “A propriedade deles é pequena, mas muito bem otimizada e voltada para a sustentabilidade”, conta Muniz.

Hoje, o casal trabalha com 70 animais, produzindo cerca de 600 litros de leite por dia. Na construção do biodigestor, o Estado garantiu maquinário e o próprio casal de produtores lidou com as obras. Segundo o técnico, foi Ademar quem testou a melhor lona que já conseguiram pela Epagri.

A produção de biogás começou em 2009 e, em 2014, decidiram criar o segundo biodigestor. “Graças ao produtor, 90% por causa dele, que tem um diferencial”, conta Osnei Muniz. Em 2013, já haviam passado o uso do biogás, que antes era aproveitado apenas para o consumo de ordenha, também para a residência. “Até no chuveiro eliminamos o uso de energia elétrica”, conta o representante da Epagri. Zenilde, que antes usava forno à lenha, conta que, para levar o biogás para a cozinha, fez um teste: “cozinhei fora, se não desse cheiro, ia pra dentro de casa. Fiz uma galinhada, fiz feijão e não deu cheiro, então instalamos o fogão dentro de casa”.

Com o auxílio do Estado, Muniz conta que o valor para o biodigestor foi de apenas R$ 3.500 em 2008. E a economia no dia a dia é inquestionável. “Utilizando 20 kg de esterco, produzimos cerca de um botijão de gás. Ou seja, uma vaca produz sozinha praticamente um botijão de gás por mês.” Em 2013, o casal reduziu R$ 40 no custo com energia elétrica mensal, além de aproveitarem o biofertilizante na propriedade e as várias utilidades alternativas do biogás produzido.

“Agradeço muito a nossa parceria, que funcionou com uma ideia daí, uma ideia de cá. Meu falecido pai sempre quis por em prática uma ideia assim, mas nunca conseguiu. Nós fomos debatendo até conseguir construir o biodigestor. Quero manter essa produção de gás enquanto eu estiver aqui na Terra”, reflete Ademar.

Biodigestor, digestato e produtividade
Junto a Evandro Barros, analista de suínos e aves da Embrapa, o agricultor Rodrigo Benelli conta um pouco de sua história com o biogás. “Nossa caixa de descarga recebe cerca de 35 mil litros de dejetos por dia, que segue para a caixa separadora de sólidos. Isso aqui é um grande projeto e ajuda não só na rentabilidade, mas também nos cuidados com o meio ambiente”, afirma Benelli.

Segundo o produtor, a produção chega a 75 kWh, com uso de 12 horas por dia, e média de 27 mil kWh por mês. “Como vocês podem ver, é uma energia boa, para gastar em um bom período”, revela Rodrigo com satisfação.

Evandro Barros explica que os biodigestores são uma boa opção para os mais diversos tipos de propriedades rurais. “O biogás é algo que se encaixa muito bem em pequenas propriedades, médias ou grandes.” E lembra da importância do biofertilizante gerado, o digestato: “ele é composto pelos nutrientes que não são aproveitados pelos animais. São os mesmos nutrientes que estão nos fertilizantes minerais”, explica.

Investimento que vale a pena
Vanderlei Neuhaus, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater – RS), e o produtor Edson Kist, relembram a instalação do biodigestor na granja do agricultor.

“É uma granja que tem mais de 40 anos de história, onde começamos a produzir suínos em 2011. A gente sempre teve a preocupação do que fazer com o esterco, que destinação dar a ele”, conta Kist, lembrando de anos de dificuldades para aproveitar os dejetos. Depois de muita pesquisa, em 2017, ele e o sócio optaram pelo biodigestor.

Edson Kist incentiva que outros produtores busquem saber mais sobre a opção sustentável, e lembra: “hoje, os bancos liberam créditos para pagar esse tipo de investimento em até 10 anos, mas, pelas nossas contas, é algo que se paga em cerca de quatro anos”.

E Kist não pensa em parar por aí. O agricultor planeja ampliar o uso do biogás na propriedade: “estamos com um projeto de utilizar também para aquecer os suínos. E outro projeto para 2022, com a separação dos sólidos e dos líquidos: os sólidos para adubo orgânico e o líquido, passar por processos, para ser reutilizado dentro da granja.”

Assista ao painel
O painel está disponível em nosso canal do YouTube, clique aqui para acessar e assistir a gravação.

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