Biogás na geração distribuída é tema de painel do 3º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano
- 30 de março de 2021 às 23:37
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O segundo painel desta terça-feira (30/03), tratou sobre biogás na geração distribuída, sob mediação do diretor de desenvolvimento tecnológico do Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), Felipe Marques.
“O Brasil tem uma grande oportunidade quando se fala em geração de energias renováveis porque tem condição de ter uma matriz bastante diversa. A geração de energia elétrica é a maior aplicação do biogás produzido no Brasil. 85% das plantas de biogás geram energia elétrica. Praticamente metade dessa energia elétrica é gerada em geração distribuída”, introduz Marques.
Regulamentação e oportunidades
Bárbara Rubim, sócia-gerente da empresa Bright Strategies e vice-presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSolar), cita regulamentações que podem gerar mudanças positivas para o setor.
Bárbara menciona algumas leis e resoluções úteis para quem já trabalha ou deseja trabalhar com biogás, como a resolução normativa 482 da ANEEL, a lei 14.120/2021 e o projeto de lei (PL) 5829/2019, que está em processo de revisão. Segundo a sócia da Bright Strategies, há muitas oportunidades lançadas e previstas juridicamente que englobam o biogás.
“Separei quatro tendências que acredito que têm muita sinergia, muita conexão com o biogás: a expansão de mercado livre, uma nova estrutura tarifária, tarifa horária locacional e serviços ancilares”, comenta Bárbara. E acrescenta: “o crescimento das energias renováveis coloca um desafio à frente do regulador e do operador do sistema, que é essa questão de estabilização da base, e o biogás está aqui para ajudar e, sem dúvidas, merece ser remunerado por isso”.
Geração distribuída e o setor elétrico
Para Péricles Pinheiro, diretor de desenvolvimento de negócios da CHP Brasil, há diversos atributos do meio ambiente, do setor elétrico, da economia e do agronegócio diretamente atrelados ao biogás.
“É a única fonte de energia cujo impacto ambiental é carbono negativo, com redução no consumo e transporte de combustível fóssil. O biogás atende o trilema do século: segurança energética, ambiental e alimentar”, observa Pinheiro. Além disso, aponta que o biogás é descentralizado.
“O setor elétrico é gigante, enorme. Hoje, está acontecendo uma modernização. O biogás é a solução para vários aspectos. Na parte de operação, as variáveis mudam todo dia no sistema elétrico. O desafio direto do setor elétrico é atender a demanda de energia, a ponta de carga – que é o pico do dia – e o fluxo de potência, além de garantir o esvaziamento dos reservatórios da forma certa enquanto controla os custos. É muito complicado”, conta.
Para complementar, o mediador Felipe Marques destaca: “a migração do centralizado para o descentralizado não quer dizer que é desconectado, porque podemos manter um sistema integrado. Essa oportunidade traz benefícios, traz alguns desafios de gestão que a gente tem plena condição de atender, e certamente aumenta a segurança energética do país”.
Microredes
“Microrede é uma rede de distribuição ativa que inclui recursos energéticos distribuídos e cargas interconectadas integrando uma infraestrutura de energia”, explica a especialista Luciane Neves, pesquisadora e professora na Universidade Federal de Santa Maria.
“As microredes podem ter várias classificações, a partir do tipo de armazenamento, fonte, conectividade, aplicações”, especifica. “E as microredes nos oportunizam ir mais longe. Na transição energética das microredes, em especial ao biogás e ao biometano, há a oportunidade de ganhar uma posição mais firme no consumo global de energia e principalmente monetizar os benefícios”.
Segundo Luciane, as microredes permitem monetizar benefícios, alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas, além de garantir inovação, flexibilidade e equilíbrio dinâmico entre oferta e demanda.
Projeto Colombari
Rogério Meneghetti, gestor de projetos de energias renováveis da Itaipu Binacional, enriquece o painel com a história do projeto Microgrid Colombari. Representantes da Itaipu notaram que um reservatório, localizado na região oeste do Paraná, com vida útil de 184 anos, poderia ser prejudicado.
“A vida útil depende muito do que acontece no entorno do reservatório. Neste caso, depende muito da produção de proteína animal. Um dos resíduos dessa produção são os dejetos animais. Se não forem bem tratados, podem ser levados pela chuva e prejudicar o nosso reservatório”, conta Meneghetti. Foi assim que a Itaipu decidiu investir em projetos de biogás para a região.
Em uma parceria com a COPEL, em 2008, foi realizada a implantação de quatro unidades de demonstração de geração distribuída, entre elas, a granja São Pedro, da família Colombari, em São Miguel do Iguaçu (PR).
“Nos últimos anos, recebemos feedbacks negativos dos produtores sobre a qualidade de energia recebida pelo consumidor rural. Nós, como Itaipu, pensamos em como poderíamos resolver esse problema, e foi através das microredes.” O case utilizado para implementar um sistema de geração distribuída foi o da granja São Pedro, que, segundo Meneghetti, produz biogás há mais de 10 anos, com cinco mil suínos, gerando cerca de 38 MWh por mês, operando em média 18 horas por dia. “Fizemos um convênio com o CIBiogás e, a partir de uma chamada pública da COPEL de 2020, visamos a aquisição de energia elétrica proveniente de geração distribuída para a implantação e constituição de microredes”, conta o gestor.