Biogás na agropecuária é discutido em painel no segundo dia do Fórum
- 31 de março de 2021 às 00:12
- Notícias

O terceiro painel desta terça-feira (30/03) do 3º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano foi mediado por Airton Kunz, chefe adjunto de pesquisa e desenvolvimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que guiou as apresentações dos convidados sobre o biogás na agropecuária.
“O biogás não é algo novo no país, temos uma história de décadas no Brasil com os processos de gestão de biogás no meio rural. O primeiro biodigestor da Embrapa Suínos e Aves foi instalado em 1981”, situa Kunz, e relembra que, desde o início dessa história, foram acompanhados muitos casos de sucesso e insucesso, assim como criadas novas empresas, instituições e projetos voltados para o biogás no meio rural e na agropecuária.
O Plano ABC
Fabiana Villa Alves, representante do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), discorre sobre o Plano ABC que, segundo ela, trouxe resultados animadores em relação ao biogás e tratamento de resíduos e outros dejetos.
A primeira fase do Plano ABC se deu entre os anos de 2010 e 2020, e agora está em um momento de revisão. Nesse período, o foco foi na redução da emissão de carbono na agropecuária. Até 2030, a promessa do plano é de promover, efetivamente, a adaptação e uma agropecuária de baixa emissão de carbono, visando resiliência do sistema produtivo frente às mudanças do clima.
“Esperamos resultados que vão além da mitigação, como resiliência, sustentabilidade, produtividade, segurança alimentar e regularização ambiental”, explica Fabiana.
A meta do plano era chegar a 4,4 milhões de m³ em tratamento de dejetos de animais tratados. De 2010 a 2019, foi alcançado bem mais que isso: 38,34 milhões de m³, o que representa 60,12 milhões de Mg de CO2 evitados. “Minha principal mensagem é que o potencial de adoção da tecnologia foi subestimado”, afirma a representante do MAPA, e comenta a intenção de garantir um “olhar especial” ao tratamento especificamente de dejetos animais nesta segunda fase.
Fabiana apresentou ainda no painel o projeto GEF Biogás Brasil, projeto com objetivo de reduzir emissões de gases de efeito estufa por meio da promoção da energia de biogás, liderado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e implementado pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), com participação de diversas outras entidades parceiras como Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), Itaipu Binacional, Ministério de Minas e Energia (MME), Ministério do Meio Ambiente (MMA), e o próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).
Cases e tropicalização
O pesquisador e professor da Universidade Federal de Santa Catarina Márcio Andrade apresentou projetos de biogás de Itapiranga (SC), e conta que são biodigestores criados com materiais alternativos, como madeira, por exemplo. Algumas das tecnologias implementadas são um reator de pirólise para produção de biochar e um sistema de biodessulfurização.
A implementação de um Condomínio Agroenergético em Itapiranga foi uma iniciativa que começou com o Projeto Alto Uruguai (2007-2010). Por conta de questões topográficas, nível de lençol freático alto e necessidade de escavação em rochas duras, foi necessário tropicalizar o projeto. “Foram interligados nesse projeto 11 biodigestores. Nós fazíamos cisternas com diversos materiais, madeira, aço, ardósia”, detalha o professor.
Outro case foi apresentado por Moisés Schlosser, gestor da Master Agroindustrial, a respeito do Projeto Sistrates na unidade de São Roque (SC) da empresa, que é a maior produtora independente de suínos do Brasil.
A granja de São Roque atualmente produz, por ano, 290 mil leitões e possui 10 mil matrizes. “Quando a gente olha o contexto ambiental, vimos uma certa fragilidade na região, como no relevo e disponibilidade de área agricultável. Vimos no Sistrates uma solução para esse desafio”, conta Schlosser.
O Projeto Sistrates prevê alguns componentes como peneira rotativa, biodigestor de lodo, lagoas cobertas e decantadores. “O que a gente conseguiu conquistar com o Sistrates: atender os parâmetros para poder fazer lançamento no corpo hídrico e também pensar em reutilizar essa água. Hoje, a gente conta com um resultado muito satisfatório.”
Dificuldades e soluções
Dificuldades e soluções do biogás na agropecuária foi o tema da apresentação de Fabiano Lovato, supervisor da unidade de gás na empresa Leão Energia. “Quando vamos a campo, vemos que a grande dificuldade é, especialmente, a falta de informação aos produtores de forma geral”, relata sobre sua experiência. Como solução, Lovato sugere a criação de cartilhas e material orientativo para conscientizar sobre o mercado de biogás.
Outro ponto citado é a qualidade dos equipamentos, que, conforme o supervisor, é um problema que poderia ser solucionado a partir de investimentos em tecnologia e tropicalização dos meios produtivos.
“Outra principal dificuldade é a mão de obra especializada. Já é feito um trabalho bastante ativo de treinamentos, preparação de material e produção dessa mão de obra, mas ainda é embrionário”, afirma Lovato. Para ele, é necessário o desenvolvimento de meios acadêmicos pulverizados focados em operação e manutenção de plantas de biogás.
Outras questões, como as distâncias enfrentadas em um país continental e a demora na aprovação de projetos de geração distribuída, poderiam, à sugestão de Fabiano, ser solucionadas a partir de estratégias de logística, responsabilidade na formação de parcerias e postos unificados de atendimento e padronização nas exigências concessionárias e permissionárias.
Bovinocultura de leite
Representando a Embrapa Pecuária Sudeste, Júlio Palhares fez uma apresentação sobre digestão anaeróbia na bovinocultura de leite, salientando desafios e oportunidades no mercado e dando continuidade ao debate aberto por Fabiano Lovato.
“Acho que nós estamos no melhor momento para internalizar essa tecnologia que, segundo relatos históricos, é milenar. Tem tudo para ser viável e contribuir seja na redução de emissão de metano ou na geração de energia”, comenta Palhares.
Ele aponta como dificuldades, para o produtor, o manuseio da tecnologia, falta de conhecimento e de assistência técnica. E, para a propriedade, falta de área para aplicação do biofertilizante ou ausente utilização do biogás como fonte de energia.
Por outro lado, Palhares ressalta oportunidades de autogeração e segurança energética, maior demanda energética por intensificação da atividade, viabilização e a possibilidade de criar fazendas híbridas, que contemplem biomassa, solar e eólica.