Painel apresenta sinergias entre Brasil e Reino Unido no setor de biogás
- 31 de março de 2021 às 23:35
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Os integrantes do painel “Sinergias entre Brasil e Reino Unido para o setor do biogás” apresentaram nesta quarta-feira (31/03) diversas possibilidades de cooperação entre os dois países, bem como similaridades e diferenças entre os dois mercados.
Participaram do painel os seguintes palestrantes: a diretora de estudos do petróleo, gás e biocombustíveis da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Heloisa Borges; o diretor do Programa de Energia do Brasil (BEP) pelo Fundo de Prosperidade do Reino Unido no Brasil, David Lloyd-Davis; a diretora executiva da Associação de Digestão Anaeróbica e Biorrecursos do Reino Unido (ADBA), Charlotte Morton; a gerente executiva da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), Tamar Roitman; a especialista em resíduos e recursos do Departamento de Comércio Internacional do Reino Unido (DIT), Deborah Sacks; o consultor do Instituto 17 pelo BEP Luiz Gustavo de Oliveira; o especialista do BEP Dorian Harrison; e o consultor da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) em parceria com o Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás) pelo projeto GEF Biogás Brasil, Ricardo Müller.
O painel foi moderado pelo diretor de desenvolvimento tecnológico do CIBiogás e consultor da UNIDO pelo projeto GEF Biogás Brasil, Felipe Marques, e pelo consultor sênior do BEP Thomas Cromie.
Heloisa Borges (EPE) abriu a discussão reforçando o aspecto circular da produção de biogás, que possibilita benefícios econômicos, ambientais e sociais: “Podemos otimizar esforços, economizar recursos, e melhorar o crescimento sustentável de países, povos e empresas por meio da produção de biogás. Políticas que dão acesso à energia limpa têm efeito importante na melhoria da saúde da população em geral e na redução de desigualdades”.
Em seguida, David Lloyd-Davis (BEP) também frisou o potencial transformador do biogás. “O BEP dá apoio à transição do Brasil para uma economia de baixo carbono, diminuindo a pobreza e aumentando a inclusão social com igualdade de gênero. Sabemos que o Brasil é campeão de energias renováveis com grande potencial para o setor de biogás”.

Histórico do Reino Unido
Dando início às apresentações técnicas, Charlotte Morton (ADBA) contextualizou avanços importantes do setor de digestão anaeróbia no Reino Unido – que é o processo pelo qual resíduos orgânicos são transformados em biogás para uso energético.
“O Reino Unido é hoje um líder mundial em digestão anaeróbia, com empresas britânicas exportando mais de £ 200 milhões por ano em equipamentos e expertise relacionados ao biogás”, conta Morton.
“Entre 2013 e 2015, houve incentivos do governo que resultaram na construção de um número grande de plantas de biogás no país todo ano. Em 2017, o setor já tinha capacidade para enviar energia para um milhão de lares. Em 2020, foi proposto o novo imposto de Gás Verde para financiar um fundo que se tornou o primeiro esquema de apoio exclusivo para digestão anaeróbia do Reino Unido”, explica a diretora executiva da ADBA, que também apresentou dados relacionados ao uso de digestão anaeróbia para o tratamento de restos de alimentos, esgoto, água residual e resíduos da agricultura. Segundo Morton, o setor de digestão anaeróbia tem o potencial de reduzir em até 6% as emissões de gases de efeito estufa no Reino Unido até 2030.
A especialista em resíduos e recursos do DIT, Deborah Sacks, apresentou frentes de atuação do Reino Unido no estímulo a aplicações variadas do biogás na economia: “Discutimos questões como um uso mais descentralizado, com várias empresas atuando fora da rede. Também discutimos a utilização de combustível renovável para transporte. Estamos incentivando o uso de biometano no Reino Unido”, conta Sacks.
A especialista diz que há grande demanda no Reino Unido por combustível sustentável para aviação, o que representa uma oportunidade para o biometano. “Companhias áreas estão ansiosas para poder utilizar esses combustíveis baixos em carbono. Então, estamos considerando o uso de resíduos para gerar combustível biometano, o que requer mais trabalho, mas tem muita gente na fila interessada”, garante Deborah Sacks, que confirma o interesse do DIT por projetos no Brasil para oferecer apoio na cooperação entre empresas brasileiras e britânicas.
Cenário brasileiro
A gerente executiva da ABiogás, Tamar Roitman, trouxe a discussão para o cenário brasileiro do biogás, também mencionando avanços importantes no país: “A regulamentação para biogás e biometano já está estabelecida, o que favorece o desenvolvimento do mercado. Nosso objetivo no momento, portanto, é expandir as fontes, para termos mais produção de biogás e mais desenvolvimento de mercado, o que passa também pela conscientização pública. Precisamos estabelecer as condições financeiras que promovem investimentos e informação, passando por todos os setores da sociedade”.
Roitman também reforça o potencial brasileiro para expansão: “O biogás representa no momento 0,1% da matriz energética brasileira, com cerca de 600 usinas pelo país produzindo eletricidade, energia térmica e biometano para combustível. Temos um enorme potencial de expansão, especialmente nas indústrias de cana de açúcar e esterco animal. Além disso, o Brasil é um grande produtor agrícola na cadeia de proteína, o que também representa enorme potencial de produção de biogás”.
Oportunidades de cooperação e negócios
O consultor do Instituto 17 pelo BEP Luiz Gustavo de Oliveira colaborou com o painel apresentando as principais questões que precisam ser consideradas para a implementação de parcerias internacionais no setor de biogás.
“Primeiro, os tipos de impacto pretendidos. Aspectos econômicos, custos e escalabilidade, bem como quais inovações precisam ser levadas ao mercado”, observa Oliveira. “Outra dimensão é o nível de impacto: qual será a mitigação da emissão de carbono e quais impactos macro podem envolver agentes interessados de mais alto nível, por exemplo com o aumento da produtividade em determinado setor por meio de usinas de biogás. Também temos a questão das cadeias de fornecimento. E, finalmente, precisamos entender qual modelo de negócio podemos desenvolver naquele momento, para em seguida desenvolver uma cronologia de implementação”, enumera o consultor.
Por fim, Oliveira indica alguns caminhos de evolução para o mercado atual: “Modelos elétricos são mais competitivos a curto prazo. Já modelos de negócio com biometano ainda precisam de algum desenvolvimento. Precisamos integrar mais modelos de negócios, integrando sistemas agrícolas e usando várias fontes. Vejo pontos importantes para cooperação internacional, como a promoção de modelos de negócios inclusivos, a elaboração de contratos para investidores, e o desenvolvimento de projetos”.
O especialista do BEP Dorian Harrison contribuiu com informações sobre as oportunidades do uso de diferentes resíduos e recursos para a produção de biogás, como a vinhaça, os resíduos da pecuária e o tratamento de esgoto. “A vinhaça por exemplo, muitas vezes é uma pedra no sapato da produção de cana de açúcar. Por isso, a digestão anaeróbia tem grande potencial para fazer parte de uma rota de tratamento para a vinhaça, removendo gargalos da indústria. Estamos procurando tecnologias escaláveis, para demonstrar em escala maior que essa tecnologia de biogás a partir da vinhaça é reprodutível”, conta Harrison, que lista em seguida os desafios da viabilidade de projetos de biogás em fazendas isoladas, e em unidades de tratamento de esgoto urbano.
Programa de Tropicalização
Uma nova possibilidade de cooperação entre empresas brasileiras e estrangeiras foi apresentada no painel por Ricardo Müller, consultor da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) em parceria com o Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás) pelo projeto GEF Biogás Brasil.
Ele convidou empresas a participarem da chamada pública do Programa de Tropicalização oferecido pelo projeto GEF Biogás Brasil, que é liderado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), implementado pela UNIDO, e conta com o CIBiogás como principal entidade executora.
“Nosso programa quer ‘tropicalizar’ tecnologias entre empresas brasileiras e estrangeiras, com condições econômicas adequadas para que isso seja realizado. Nosso objetivo é termos pelo menos oito propostas de empresas internacionais, para as quais queremos oferecer assistência especializada com os melhores especialistas do mercado”, conta Müller.
Para saber mais detalhes sobre a chamada pública do Programa de Tropicalização do Projeto GEF Biogás Brasil, acesse www.gefbiogas.org.br/tropicalizacao .