Painel apresenta cases de sucesso do biogás no Brasil
- 01 de abril de 2021 às 22:52
- Notícias

Palestrantes discutiram benefícios ambientais, sociais e econômicos de exemplos de sucesso em produção de biogás no país
O Painel 7 do Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, apresentado na tarde desta quinta-feira (1º/04), serviu como vitrine para diversos cases de sucesso do setor de biogás no Brasil.
O evento online foi moderado pelo coordenador adjunto de inovação em tecnologias setoriais da Secretaria de Empreendedorismo e Inovação (SEMPI) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), Gustavo Ramos. Participaram como palestrantes os seguintes especialistas: a supervisora corporativa da área ambiental da Frimesa, Andrieli Schulz; a coordenadora do território sertão do Pajeú (CE) na ONG Diaconia, Ita Porto; o diretor de engenharia da Enermac, João Carlos Zank; o supervisor de unidade de gás da Leão Energia, Fabiano Lovato; o diretor comercial da ZEG Renováveis, Ricardo Blandy; e o diretor técnico da 3Di Engenharia, Lucio Ricken.
Biogás como solução
Gustavo Ramos (SEMPI/MCTI) deu início ao painel contextualizando a consolidação do biogás no Brasil e no mundo como uma solução para desafios ambientais: “O biogás possui potencial gigantesco para auxiliar os países a atingir as metas estipuladas a partir da COP 21 em Paris – e ratificadas na COP 22 em Marrakesh – de redução de gases de efeito estufa. O biogás pode ser o protagonista dos próximos anos quando falarmos em energia”.
Ramos também ressaltou os benefícios econômicos e sociais da produção de biogás, que transforma resíduos orgânicos da agroindústria e de ambientes urbanos em energia e combustível renovável: “Com a produção de biogás, os resíduos são, na realidade, ativos econômicos, e fazem toda a diferença para agregar valor à produção. Além disso, a biodigestão nos entrega o biofertilizante, que é outro produto com valor estratégico para a produção agrícola, resultando em ganhos de produtividade. A atividade também traz ganhos sociais, como elevação de renda e geração de empregos, principalmente no campo”.
O coordenador adjunto menciona o Projeto GEF Biogás Brasil como um exemplo importante das atividades de apoio ao setor coordenadas pela SEMPI. O Projeto é liderado pelo MCTI, implementado pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), e inclui o Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás) como principal entidade executora.
“Conseguimos em 2018 a aprovação do Projeto com recursos do Global Environment Facility (GEF), e em 2019 começamos oficialmente o Projeto. Hoje, a iniciativa reúne uma série de atores do setor”, destaca Gustavo Ramos.
Projetos de sucesso
O diretor de engenharia da Enermac, João Carlos Zank, apresentou ao painel outro exemplo de sucesso no setor de biogás: uma planta de biogás localizada em Ouro Verde do Oeste (PR), que conta com os resíduos orgânicos de 100 mil animais em granjas no entorno. “Nosso arranjo tecnológico considera o transporte dos resíduos. Além disso, o digestato gerado pela produção de biogás pode ser retornado para as granjas como biofertilizante, e o excedente pode ser tratado e usado como saneamento”, cita o empreendedor. “Coletamos os resíduos nas propriedades, e centralizamos o tratamento e a produção de biogas”.
Zank relatou que a planta hoje é capaz de abastecer 2.500 residências com energia, e que o projeto traz benefícios para os produtores, a prefeitura e o meio ambiente: “Para os produtores, o tratamento de resíduos representa aumento de receita e expande o próprio modelo de negócio do produtor. Para a prefeitura, há aumento no recolhimento de ICMS. E o digestato produzido nesse processo é quatro vezes mais eficiente, o que resulta na redução de custos com a lavoura e na redução do cheiro ambiente na aplicação. Ou seja, o projeto oferece possibilidades de expansão de negócios aos produtores, resultados econômicos e sociais para a prefeitura, e a possibilidade de expansão do próprio setor agropecuário no município”.
O diretor técnico da empresa 3Di Engenharia, Lucio Ricken, apresentou outro case de sucesso localizado no Paraná, no município de Entre Rios do Oeste. O projeto da empresa é um condomínio de agroenergia que conta com um plantel de suínos de 40 mil animais. O biogás produzido no local é injetado na rede coletora e é levado até uma central termoelétrica para ser convertido em energia elétrica por meio de geração distribuída. “Conseguimos tratar 242 toneladas médias por dia de resíduos orgânicos da suinocultura”, explica o diretor técnico.
Ricken ressaltou também o aspecto social do projeto. “Recebemos alunos de escolas do município para falar de biogás, e eles se percebem como donos do projeto. A energia elétrica gerada pelo biogás ilumina a sala de aula onde eles estudam. Criamos uma cultura de longo prazo com resultados positivos. É importante essa conexão com o setor de educação dos municípios”.
Otimização da produção e redução de custos
A supervisora corporativa da área ambiental da Frimesa, Andrieli Schulz, apresentou a experiência da organização cooperativa com um projeto de sucesso em uma planta localizada em um frigorífico em Medianeira (PR). O projeto independente tem o objetivo de tratar resíduos industriais, produzindo biogás para utilização na chamuscagem de suínos.
“Partimos de um passivo ambiental enxergando a oportunidade, a inovação”, disse Schulz, que explica em seguida como o projeto de biogás reduz os custos da empresa com uso de GLP e CO2. “Em nossa primeira etapa de trabalho, geramos biogás para a chamuscagem de suínos. Na segunda etapa, temos a purificação do CO2 e utilização do biometano. Em breve, teremos em torno de seis mil metros cúbicos de biogás gerados por dia. Já nessa primeira etapa, evitamos quase R$ 2 milhões em custos com GLP por ano. Na segunda etapa, o uso do biometano continua evitando os custos do GLP, e em breve uso do CO2 para abate de suínos vai resultar em uma economia de R$ 1,5 milhão por ano”.
O supervisor de unidade de gás da Leão Energia, Fabiano Lovato, explanou ao painel um case de sucesso no município de São Gabriel do Oeste, em Mato Grosso do Sul. A planta de biogás da empresa trabalha com suinocultura, possui quatro geradores e um incinerador de carcaça. Além disso, a empresa disponibiliza aos clientes uma inovação que permite um acompanhamento mais detalhado da produção: “Fabricamos um laboratório móvel de biogás para dimensionar plantas de biogás com maior precisão, para que possamos otimizar processos e reduzir custos com máquinas ociosas. Os produtores geralmente não têm conhecimento detalhado do volume e da qualidade do biogás produzido, e por isso investem apenas na qualidade dos geradores. Estamos investindo em tecnologia para solucionar essa questão”.
Na frente de aterros, o diretor comercial da ZEG Renováveis, Ricardo Blandy, demonstrou um projeto de fornecimento de biometano para caminhões por meio do tratamento de resíduos orgânicos recolhidos das zonas Sul e Leste da cidade de São Paulo. “Vamos começar a abastecer frotas de empresas com o gás gerado a partir dos resíduos do aterro, com a produção de energia e biometano”. Blandy também falou sobre outros cases interessantes, como a produção de biogás a partir do efluente de óleo de palma e o aproveitamento do digestato resultante para a fertirrigação de açaí.

“Biodigestor sertanejo”
A coordenadora do território Sertão do Pajeú (CE) na ONG Diaconia, Ita Porto, trouxe ao painel um exemplo de aplicação do biogás que coloca o protagonismo do processo nas mãos de famílias do semiárido nordestino. A organização trabalhou no desenvolvimento do chamado “biodigestor sertanejo”, cujo primeiro protótipo foi criado em 2008.
“Esse biodigestor é composto por uma caixa de carga para os resíduos, uma caixa de fermentação que comporta até seis mil litros de resíduos, geralmente suínos, e uma caixa de descarga para o biofertilizante, que por sua vez é usado para garantir a produção de alimentos das famílias”, informou Porto.
A coordenadora disse que, atualmente, seis estados brasileiros contam com o modelo de biodigestor em funcionamento (Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Goiás, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), beneficiando quase 400 famílias: “O biodigestor é construído por placas pré-moldadas e tem uma função social relacionada à capacitação de pedreiros locais. Há geração de renda na construção da tecnologia”, observa conta Ita Porto. “O biodigestor também beneficia diretamente as mulheres, que sofrem historicamente com o carregamento da lenha para fazer alimentos, gastando depois horas no fogão de lenha com todas as dificuldades de respiração e calor. O biodigestor tem impacto no saneamento das famílias, e por isso são as mulheres que se apropriam com mais força dessa tecnologia. São elas que geram a economia doméstica pela produção de biogás no cozimento, e que participam da comercialização dos alimentos em feiras”.